sexta-feira, 16 de maio de 2014

VAZIO


Não é o que eu sinto em mim
Mas o que sinto no que vejo
Vejo palavras fortes, campanhas, conselhos, e nada.
Só o vazio das folhas que não existem
Saudades de ler e escrever, de sentar no fim da tarde, de abraçar
Não vejo pessoas, vejo reflexos, espelhos que tentam impressionar
E assim, vejo o vazio
O vazio de meus contemporâneos, que se perdem em teclas sem voz
Eu vivo no meu silêncio, para não falar o nada
Nada de impressionar, declarar amores e ideais, levantar bandeiras que estão em branco
Levanto-me e trabalho,
Levanto-me e cuido,
Levanto-me e ando.
Todos os dias vejo pessoas reais, numa vida de trânsito, numa estrada de muitos caminhos
Abraço quem eu posso, beijo quem se importa, brigo se acordar alguém
O resto.... só vazio
E eu, só uma voz a teclar.


16/05/14

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Anos

Jaz que passei dos trinta e não fui crucificada
sim, pois a idade do Cristo também venci
e de agora em diante tenho meus próprios espinhos
a plantar em outras cabeças e pregos
a bater em palmas

Jaz que a juventude se foi em fotos
e do tédio de minhas asneiras
bebi com meus amigos, a fazer rir o garçom

Jaz que a articidade e espírito leonino se converteu em espiritualidade,
rezo na manhã do meu lar, no aconchego de minha família
a recontar o que sou

Jaz, de tempos em tempos, aqui se faz uma breve conotação de fatos sentidos
a expropriar o direito de ser eu ou ela, outra pessoa

Jaz, que eu não danço jazz, nem negra nasci
mas percorro o chão que se levanta aos meus pés

Jaz, que a vida corre e minha pequena cresce
e escreve mais do que eu em mim

Jaz, que reinvento as tentativas de amor de meu amor
e norteio meu coração pelo que pode vir a ser

Jaz que fiz idade

sexta-feira, 7 de junho de 2013

SE PERDER



SEM TER O QUE FALAR

SEM TER O QUE DIZER

SEM TER AO MENOS O QUE NEM ACREDITAR

SEM TER O QUE SENTIR

SEM TER O QUE SE OUVIR

SEM TER VOCÊ AQUI PRA RECLAMAR DE MIM

SEM TER O QUE FAZER

SEM TER O QUE CEDER

SEM TER DIREITO OU VERDADE DE QUERER

SEM QUERER ME DESPEDIR

SEM ROUPAS PARA ME DESPIR

SEM DESCULPAS OU POR QUERER TE OFENDI

SEM LÁGRIMAS PRA CHORAR

SEM FORÇAS TENDO QUE ANDAR

SEM CALMA E DESESPERO QUERO CORRER PRA TE BUSCAR

SEM VIDA PRA SENTIR

SEM CORES PARA COLORIR

SEM FADAS OU DUENDES PRA ENFEITAR O MEU QUINTAL

SEM VOZ EU TENTO TE CHAMAR

SEM RESPOSTAS EU SENTO A ME CALAR

SEM MÁGOAS E MENTIRAS INVENTADAS
AGORA É TUDO IGUAL



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Dois mil e treze

O ano novo chegou
o computador pifou
o carro sumiu
as canetas falharam
mas o mundo não acabou!

A sogra chorou
a cerveja até sobrou
e os amigos riram

Hoje tem sol e praia pra quem quiser
tem parente pra visitar
criança pra buscar
e tudo afinal vai voltar ao normal

Porque foi só mais um dia
mais uma briga
e uma boa dormida
que me fez ver que o tempo já foi
que nem bebi tanto

O que vale é o quanto
a gente gosta de verdade
sabe tolerar e dar beijo de boa noite
porque o final não chega
e daqui a pouco já é carnaval

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O faz de conta


As feridas estão abertas
Se eu pudesse seria um pássaro pra voar daqui
Ou ter músculos pra te bater
Mas nem um nem outro resolvem
Minhas feridas não secam, o alho continua a temperar demais
Soa como nunca antes, dói que nem topada no dedão
A faca tá amolada sobre a mesa, esperando alguém cortar o pão
Dividir essa coisa mal cortada, essa comida estragada
Se eu pudesse seria uma leidi, seria Amélia e Eva
Mas não sei, não passo do quadrado de minha casa
Suporto o que se convém e o resto vira drama
Nossa vida parece novela que não termina, desenho inacabado
Queria conseguir de verdade, evoluir nessa noite e virar lobisomem
Uivar pra lua cheia e correr por aí
Ser menino de treze anos, que nem a lenda
Vivo sonhando acordada, viro demais na cama e caio no chão
O chão me acorda e me diz qual é o limite, mas dói e deixa o rosto roxo
O amor é estranho mesmo, ou eu que sou
Porque nem sei pedir desculpas, nem deixo o tempo passar
Sinto falta da tua pele e de tua magreza
Queria ver filme junto, ir á praia
Mas o tempo ficou nublado e não tem vento que dê jeito
O meu peito nem sente mas a cabeça roda
Enquanto fico aqui esperando na lógica da reencarnação
Acho que o problema é esse, é voltar
Se eu voltasse poderia me segurar e dar um tapa pra me acordar
Saber que ia dar zebra, que o bicho pegou
Só que a vida tem relógio e conta depressa o tempo da gente
Nem percebi que você foi embora, fiquei aqui divagando nas minhas objeções
Incerta de ter razão ou sentimento, contando os papéis de notas a pagar
Esqueci da criança que pari, de criar devagar e com paciência
Aprender não é fácil, mas a gente vai seguindo até o portão fechar
Se der o sinal e eu ficar de fora, vou chorar que nem criança
Vou sentar no meio fio e por a cabeça entre as pernas pra ver se  o mundo gira
E não vai eu sei
Vou ter que levantar e lavar a cara, mas eu fico aqui te esperando até você sair
Até me dar outra chance
e vou rezar pra Deus não me entender e me dar outro tombo
porque senão não aprendo

04/12/12

Perdão que nada


Peço perdão por mim e por você
Perco as horas tentando ver
Conto as moedas e não dá pra comer
Pego o ônibus e durmo depois        

Tento rimar mas acabo sendo clichê
Toco sua pele e ninguém vê

Barbarizo a minha face quando não devia
Gravo a minha voz e falta sintonia
Me falta achego, te peço dengo
E faz que não me escuta

Deixo o tempo passar
E é só o que faço

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Queria que essa folha em branco no meu computador dissesse mais que o que vou dizer
Mais o que sinto e penso
Conceitos, perturbações, conflitos, religiões
Tantas coisas por falar, por fazer
Nada aqui
Ninguém
Há um espaço entre eu e essa linha, entre o branco da folha e as teclas em que digito
Há um espaço entre o que falo e que penso, entre o que sinto e o que o outro vê
Certa vez disse que a imagem de mim nada mais é que só imagem
Mas como isso se apaga, se transforma ou deforma sem que a gente perceba?
Há um espaço vazio, entre minha mão que te aperta e minha voz que sussurra
Um espaço , um lugar em que mais de uma presença é sentida, mais de um sentido é composto
É um espaço em que creio, em que me empurro tentando entrar, mas que não passo da parede do espelho
Há um espaço em que me movo, em que movimento minhas inspirações e deixo que o círculo se complete e me complemente em que falto
Há um lugar, um lugar onde a ausência é somente de tudo o que eu não entendo
O que perturba me faz andar, tentando achar esse espaço, esse lugar , essa presença do que não está aqui
A casa por arrumar, o marido que chega
Meu espaço mudou, chegou e talvez eu tenha visto alguém no espelho acenando pra mim, ou tirando o pó da mesa
Há um pouco de chá, de mágoa, de resto de café derramado no chão
A pia vasou, o cachorro não quer entrar na casa, no seu espaço, ele procura por algo
Eu sei que você não vai entender, não é pra isso
É só pra eu tentar mais uma vez te encontrar aqui

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A pequena

Coisa mais linda e inspiradora
é a Malu leitora!
Lendo as suas histórias, seu gibi,
lendo as rimas de poesias
e me fazendo rir!
Fico aqui que nem boba,
com a pequena que recém
aprendeu b com a comigo,
entendeu o que é interrogação
e agora sabe entonação!
Malu Maluca,
soa como uma aprendiz
mas que não é mais minha
porque me ensina muito mais,
e ainda faz o que eu não fiz!


segunda-feira, 19 de março de 2012

Presente do Vento

O vento trouxe uma pedra
que plantei em meu terreiro
Ela deu uma flor
que chamei de Vitória
O vento vestiu uma saia
e começou a rodar
Espalhando suas flores
por todo esse lugar

Oiá Oiá Oiá
Rosa pedra vitória
Ventania que leva embora,
ventania me traga de volta

O vento plantou semente,
semente virou raiz
Ela deu uma roseira,
de rosa palha-amarela
A rosa tornou presente
que fica em meu coração
Hoje faz parte da nossa vida
e da minha oração

Oiá Oiá Oiá
Rosa pedra vitória
Ventania que leva embora,
ventania me traga de volta

Ventania que leva embora,
ventania traga meu amigo de volta

17/10/11

segunda-feira, 12 de março de 2012

Ceci, Amyr e Janaína

Encontrei Seu Ceci nas ruas de Paraty
Em poucos minutos, me contou sua história
e o homem de 60 anos me emocionou com suas memórias
Ele, simples pescador, que também gostava de mergulhar
iniciou, sem querer, um famoso menino na arte do mar
Sem planejar, o menino surgiu faminto por embarcar
naquela que seria sua eterna canoa: Janaína
O menino, de tão insistente, fez Seu Ceci emprestar a canoa
e, de repente, tinha sumido na lagoa
Disseram a Ceci que fora do outro lado da bacia,
visitar a ilha de seu pai
Cecir admirou-se pela vontade de um menino de dez anos de idade
Alguns anos passados, o menino voltou ao pescador
acompanhado por sua mãe que pediu, quase chorando,
que a canoa fosse comprada, pois o menino
desde aquele dia, só ficava acordado sonhando
com aquele mar e por ali estivesse navegando
Assim, Seu Ceci vendeu Janaína
que o menino Amyr até hoje conservou muito querida
Anos depois, o menino também virou homem do mar,
conta histórias de sua vida a navegar pelo mundo
mas não esquece onde nasceu sua sede por viajar:
em Paraty, com o pescador, poeta e encantador Seu Ceci!




















Ps.: Ao final dessa conversa Seu Ceci tinha lágrimas nos olhos. 
Não resisti, e lhe dei um abraço!

terça-feira, 6 de março de 2012

Pedido

Minha mãe d’água, me leva embora desse lugar
que tanto penso e não chego onde espero
Me leva pro seu mar onde tudo pode se realizar
Sento na beira da praia,
olho suas ondas e seu verde-azul me acalma a mente
Leva embora minhas tristezas, me enche de brisa
Janaína que embala os barcos, embala meu corpo agora nas ondas do seu mar
Serena meus olhos, serena minha alma
Rezo a minha mãe d’água que venha me levar
Eu como pescador, que não conhece nada dos seus encantos, nada da vida
Tento entender as ondas do mar, seu vento, seu balanço
Minha mãe, meu mar
Que me leva e me volta a mim
Que me traz de volta a sua frente
pra entender o quanto é grande esse mar, essa vida
e o quanto sou pequena nessa areia de praia
Me guia nas ondas dessa vida,
me leva onde tenho que estar e me dá coragem
pra levar o meu barco por seus misteriosos caminhos,
meus pensamentos nessas ondas que não sei por onde vão dar




05.03.12

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Quando tudo está muito bem

 Quando tudo está muito bem em minha vida, sinto medo, sinto que algo está para acontecer.


Foi pensando nisso que recorri a minha mãe, que me lembrou de um lugar há tanto tempo esquecido por mim. Um lugar que visitei quando era adolescente, numa época em que eu procurava boas causas a seguir, boas atitudes a fazer e por isso era vegetariana e simpatizante do anarquismo. Do último ainda sou.

Mas me lembrei de um lugar que conheci onde uma senhora de não sei exatamente quantos anos, mais senhora do que minha mãe, fazia de sua casa uma creche em que crianças do arredor ficavam o dia ou a metade do dia ali para terem atividades, terem a companhia de pessoas que as queriam bem, pois em suas casas essas crianças eram mal tratadas (destratadas), abandonadas ou não tinham simplesmente o que comer ou com quem ficar. Nesse lugar, essas crianças eram crianças, tinham comida (nem que fosse pouca) tinham alguma brincadeira e algum aprendizado que em casa com certeza nunca teriam.

Uma senhora, que podia ser minha avó, tomava conta de cerca de 100 crianças que eram desprezadas por suas famílias, pela sociedade ou pelo poder público, e pior ainda, eram desprezadas por mim. Sim, pois desde a época em que eu conheci esse lugar e essa senhora, e também tomei conhecimento dessas crianças, há uns oito anos, voltei-me a minha vida, somente a isso.

Hoje quando relembrei desse lugar, dessa senhora e dessas crianças, busquei informações na internet (o oráculo virtual) e vi que há dois anos eles estavam precisando de muita ajuda, que um grupo de pessoas os ajudou, que outros e outros grupos fizeram algumas campanhas, de arrecadação de comida, de presentes em época de festividades. Vi também algumas fotos do lugar, como mudou desde então.

Depois disso, fui colocar minha filha para dormir, e pensei que hoje comprei o tênis escolar dela, que deveria ser rosa porque ela adora rosa, ou um tom parecido; pensei que essas crianças não devem nem ter tênis para ir à escola, talvez uma sandália de dedo; pensei na história que eu contei pra minha filha dormir, “João e Maria” que ela escolheu (coincidência?) e pensei nas histórias que essas crianças nunca ouviram de seus pais, ou nas que nunca conheceriam; fui fazer o leite com chocolate pra minha filha dormir e pensei na quantidade de leite que essas crianças tinham pra beber por dia; olhei a minha geladeira e a minha dispensa e pensei na comida que havia nas casas ou na creche para essas crianças se alimentarem todos os dias; por fim, dei “boa noite” para minha filha e lembrei por instantes de tudo que ela é pra mim, de todo amor que sinto por ela, e pensei no amor que essas crianças devem ter todos os dias de seus pais, em suas casas.

Enquanto leio meu mural no “face”, enquanto “compartilho” minhas fotos e leio campanhas de adoção de animais “carentes”, enquanto minha filha dorme  e eu rezo, enquanto minhas palavras são escritas e lidas, enquanto tudo isso e outras coisas acontecem, alguma criança daquele lugar está sem sapatos, sem comida, sem leite, sem história, sem boa noite.

Por isso minha vida não está bem agora. Algo está errado. E também por isso, novamente vou "compartilhar", na esperança que algo além disso em mim mude.

OBS.: O lugar é a Creche da Tia Maria fica na Rua das Amendoeiras, quadra 24, casa 24, bairro Caminho de Búzios, Cabo Frio, RJ. Tel: 2629-2347

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Reverência

Ao negro que me invade e faz do chão o seu terreiro
Deixando sua música e dança em meu corpo
Falando simples, sendo forte em seu conselho

Ao índio que rompe pelas matas
E chega em minha alma
Fazendo-a seu abrigo, colhendo seu alimento e firmando mais

À criança que me ensina a brincar e relembra o que tenho
Todos os dias em minha boca mas esqueço:
As doces palavras

Ao povo que vem de lugares que nessa vida não conheci
Mas que carrego dentro do meu coração -
Que enlaça nos campos
Que balança no mar
Que encanta na rua

Às luzes que ainda não sabemos seus nomes
Mas que nos motivam a sermos melhores e nos guiam nesse caminho de fé

17/10/11

Três

Já não sou mais duas
Nem partida ao meio
Já fui o que sempre quis
E deixei o resto pela metade
Deixei de ser o que sonhava
E deixei de sonhar
Mas acima disso deixei me levar
Por uma vontade alheia a mim


Sou agora o desejo de ser
A mudança em volúpia
A transmutação do que eu não sabia ser
Descobri em mim eu mesma
Percebi que não era dividida em dois
Mas olhava somente por dentro e por fora
E hoje sei que existe outro caminho


A vida surpreende e decepciona se esperarmos por isso
Então não mais espero
Faço o que sinto e reflito antes de falar
Não por ser descabida, mas por ser mais gentil
As falas que me invadem não são mais de mim
São de tudo o que não enxergava
O que não sabia de onde vinha


E agora tenho o compromisso de não ser mais surda!

30/03/09


domingo, 19 de setembro de 2010

Contraditória

Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
A vida que penso em ter e não retomo ao que faço
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
As realizações que construo no caminho e se destroem com tanta facilidade
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
O pai que ama a mãe e a mãe que se perdeu por isso se perder
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
A paciência em terminar uma discussão em não gritar
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
A fidelidade aos sentimentos que me equilibram
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
Os planos de trabalho que faço e não completo
Dentro de mim eu quero que seja
Mas dentro de mim eu sei que não é
Há momentos em que sou de fato isso e outros em que me enquadro na questão, pra não ter que dar trabalho.
Mas existem janelas em meio ao tempo, que abrem possibilidades de ser eu mesma, onde entro em contato com uma sensação de serenidade verdadeira, e que parece que o espaço onde me encontro já não é esse.
Enfim essas janelas existem, pois sinto, e essa é a aparência da verdade.
Se eu forçar a mente em acreditar nisso, eu me transporto pra lá, pra esse lado em que minha vida muda de repente.
E de repente pode mudar mesmo, mesmo aqui.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Trocas

Trocamos de vida, sim trocamos
trocamos de roupa pelo prazer de trocar
de cor de cabelo, quando enjoamos
trocamos a casa, quando ela é pequena
ou sua cor, se não a trocamos
e talvez os móveis de lugar

trocamos de canal da tv, ou de estação do rádio
de lugar na escola, no ôbinus
ou de carro, se temos mais dinheiro
trocamos de sapato, se não combinam
e de bolsa também

trocamos uma ideia, sem compromisso
assim como trocamos com quem falamos
essas mesmas ideias

trocamos palavras sinceras
e elogios ou ofensas
carinhos ou desprezos

trocamos as pernas quando bebemos
ou nosso caminho, mesmo sóbrios
trocamos a conversa, se não compreendidos
ou a companhia se não compreendemos

trocamos de hábito por necessidade
ou de namorado quando trocamos nossas necessidades
trocamos metas, quando o tempo passa e não conseguimos nada

trocamos as fraldas quando somos mães
e aí também trocamos os dias pelas noites
mas aprendemos a nunca trocar o amor que sentimos

trocamos a noção de felicidade que tínhamos
trocamos nossa vida, quando já não sabemos o que trocar
trocamos de certeza, quando estamos em dúvida

trocamos a alegria pela tristeza, e em segundos
o contrário, sem saber como

trocamos de atitude, quando trocamos de ponto de vista
trocamos intimidades, olhares, experiências
E ainda somos capazes de trocar tudo isso por algo que não entendemos,
pelo simples prazer de trocar.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Desarranjo

desfaço o que vejo
vejo de novo
como como você comeria
faço o que não ouço
ouço
repouso
e não esqueço
calo e retardo
corro
correria que a minha perna cansa
ai ai
dança
que vontade que dá

essa miséria de vida
me faz lembrar
de você
sempre
meu espinho alcança a testa
me resta você
calo
e você fala na cabeça
cala minha inconsciência
e minha pele apenas sente
o ar passar
e vê que nada é tão sério
é sério
sim é
mas se eu parar pra pensar
não tem mais graça

a roda continua
se repete
me repele
me empurra
eu que nem sei
eu que nunca quis
me obriga a admitir que existo
só isso

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Negação

Não quero fazer alarde nem fama
Quero ter prazer
E quem me ver
Gostar de verdade
Não só por ser arte

Não quero fazer propaganda
Ou mostrar-me em fotos
Circular nesse círculo em que não me encaixo
Prefiro a margem dos que estão por baixo
Sou a do rodapé
A pequena que fica nas entrelinhas
Povoada em sonhos
Fascinada com as nuvens lá de cima

Quero compartilhar, mesclar
E me encontrar no que gosto
Não só sobreviver
Quero ser a fumaça do mágico
Que aparece sem ser vista
Mas que brilha no fundo

Não quero os holofotes
Mas sim o luar à noite
E o sol que me alimente
Não quero ter um intelecto-demente
Que me convença de ser rei
Quero descer do palco, ser plebeu
E banhar-me no vinho e na dança

Que hoje eu seja o que um dia sonhei
E que no final não me peçam para acordar!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Dois

Meditar, ampliar
Ser, estar

Ser mais, doar
Dar, receber
Trocar

Ser um e outro
O outro em si
Deixar de ser-se

Sentir, refletir
Refletir-se nela
Reflexo dele
Ser dois

Ser um
Andrógino sendo dois
Dentro de si
Ser além

Relaxar...
Expirar, aspirar
Sentir estar

Sê cada um
Sê um... não.
Sê vocês!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Saber

vou sendo o que não sei
sei o que não sou
mas o que quero ser
deixei se perder em sonho
e fui feliz lá
mas quando acordo
já não lembro do agora
e peso no presente
em que me dispenso das horas
a figurar o que deveria ser
e daí?
não sei,
descobri hoje o nada em mim.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Duas

Partida em mim
Em duas metades
Em dois princípios
Um sólido, por ter sido o que não desejei
A lamentar o que não fui
A remediar meus desejos de ser

Outro fluido
Se regenerando como pode
Administrando o tempo que tem
Contorcendo-se entre as obrigações da vida que possui
E as tentativas de viver o que ainda pode ser


O que vale nesse tempo em que aqui estou?
Fazer o que me dá na cabeça,
Pesar o meu pensar...
Agir ambientalmente ou somente para mim, nesse instante em que existo...
Mas não vivo só, dei passagem a uma vida que hoje depende de mim
E eu dependo de outros, e outras coisas que não me pertencem

E a que pertenço? A mim? Ao outro? Ao mundo?
Venho conflituosa caminhar sob as árvores e relembrar o que sou
O tempo não passa tão rápido
Eu que o vejo assim, e a vida torna-se lenta então
É só percebê-la da forma que convir que será o que se deseja

Então, o que desejas?

20/06/08

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Rê - in

Ai a razão...
histeria de meus olhos...
Meus pensamentos...
mãos do vento...
E você...
uma borboleta que não entendo...
uma historia fantástica que ainda não aconteceu
que foge à razão e trai meus sentidos
que dissipa o que acredito e faz-me incompreender-te
Grande sereia da lua
que sobre sua fria superfície nada
como se nada existisse nesse nosso planeta verde
Nada... é o que nem sempre entendo,
mas vejo uma luz que me deixa ao menos... curiosa!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Olhos alheios

Olhos alheios definem como eu não sou 
como a paisagem de mim 
que repousa em meu lar 
Você me olha 
olha-me e enxerga o que eu gostaria de ser 
meu impulso lastimável 
que só realiza-se em você 
Olha-me 
Olha-me de novo 
e vê que não sou de verdade 
vê que sou um sonho ainda em pensamento nebuloso 
no sono de menina da menina 
que vive acordando 
 Acorda-me 
dá-me a vida necessária 
em que a minha ainda não se realizou 
dá-me a dúvida da vontade 
e o espelho pra ver e admirar-me 
 Alimento 
Torna-se meu alimento 
dos desejos que em mim 
há muito não se tocam  
Toca 
toca com carinho 
em minha sobrepele 
e faz-me bem 
em não estar presente 
Presente, 
obrigada! 

 20.07.08

domingo, 18 de maio de 2008

Até o pós (poema pós-moderno)

Até breve ou após.
No pós-momento em que me acho
não me encontro de fato,
devaneio entre os básicos sentimentos
e as formas abstratas
que gritam ao meu lado.

Pós-ato: no pôr-do-sol instante
em que me definho no vinho
tento me equilibrar
nas definições ainda persistentes na mente.

Individual-realismo,
caminho espiritual
ou promíscuo.

Não entendo o que sinto,
mas ando no precipício,
na imagem pro altar,
no pós-término do falido
- na aragem do não colhido
há espaço pro hospício.

E as mulheres-indivíduos,
os homens semi vividos,
vivem não mais oprimidos
- recebem da antena de tv
o raio que mensageia o que não veêm.

E o meu pós retrato (espaço)
ainda inexiste,
mas subentende no outro
o que (não acretido)
me visite só em sonho.

Um

De todas as janelas
que me olham agora entreabertas
uma faz brilhar em mim
a impaciência da curiosidade

De todas as cortinas
que cobrem os vultos andantes
uma dança ao efeito dos ventos
que inutilizam sua tentativa de imobilidade

De todas as fontes
que escorrem por entre as pedras
uma desperta sempre ao alvorecer
fazendo em mim brotar suores de felicidade

De todas as luzes
que refletem sobre as mentes
uma atrai-me ao incesto de mim mesma
provocando impulsos de promiscuidade

De todas as vidas
que em meu corpo habitaram
uma se funde sem perceber
e permanece num tempo que se faz eternidade

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Visão

Vi Deus ali na torneira
da pia do banheiro
Estava sentada no vaso
tentando urinar
imaginando a água
escorrendo da torneira
Foi quando, no reflexo dela,
vi a imagem de Deus surgir pra mim
Estava de branco e de barba
que nem Jesus
Então consegui urinar
e ao mesmo tempo lágrimas
escorreram de meus olhos
Tentei tocar Deus ali, na torneira,
mas acabei embaçando-a
com meu dedo suado
E nisso Deus ficou desfocado
e não pude vê-lo mais
Chorei por alguns milésimos de segundos
então levantei do vaso
saí sem lavar as mãos
sem tocar em Deus
e o deixei lá.

23.02.03

A bolha

O tempo me comprime em mim mesma
as horas não se estendem para me aliviar
o tempo se esvai durante as horas
e eu permaneço no mesmo lugar.

As pessoas passam por minha alma
e tenho sede de senti-las
mas a mão de pensamentos
ainda sustentam a vontade que me habita.

Ouço apenas o silêncio de minha voz agora.


2004

Eu vi o menino

Socorro...
Agoniza em mim um grito de esperança
por mais que pareça de desespero
Aquele menino que passou ali
levado pelo homem branco
e pelo outro que dirige o carro
aquele menino negro
levado com meu grito contido

Socorro...
Nossas falas à mesa parecem se mover
enquanto o que se passa ao meu redor
pára por alguns instantes
O menino levado...
Aquele menino foi eu levada de mim
confusa entre os homens
entre as conversas
em que pareço estar tanto atenta
mas no ato sinto-me passeando por tudo
o copo de cerveja
o casal ao lado
o menino que passa
o meu casal...
vejo todos juntos e isso me assusta

Socorro...
O menino já passou
e agora só resta nossa conversa
ainda sobre a vida que é cíclica
sobre um projeto a se executar
sobre bio coisas e moleco secular
e eu? onde estou?
Estou dentro daquele carro branco
de vidros negros
fui levada sem perceber
e só agora retorno desse conto
e monto aos ausentes
o fato por mim passado:
Um minuto de silêncio por favor ( _ )
Termina o minuto e volta a conversa
mas e o menino?
Onde estou?

Socorro...
Meu pensamento pede passagem
pede um tempo pra se organizar
mas se de fato o tempo for circular
aquele menino há de voltar
e eu afinal
saberei onde estou.

2004

Casa de mim

A ausência de palavras permeia
por esta casa
Ressoando em meus sentidos
Fazendo sentir em mim a necessidade
de não calar
Por mais que eu ande rápido
Meus pensamentos não me deixam
Minhas vontades continuam a surgir
A cada nova imagem
Que aparece em meu cérebro.
As sombras do passado
Não me deixam viver o presente
E não resolvo meus deveres,
Muito menos meus impulsos,
Que me levam inconscientemente
A novas escolhas.
Enquanto ainda me convulsiono
pelas passadas (antigas idéias)
mal resolvo as que me surgem à frente
E não vejo a construção
de meu caminho
pois as pegadas só formam círculos.
O tempo se estreita
E não consigo me terminar


09.03.03

quarta-feira, 14 de maio de 2008

No corpo

Contorna o contorno
das coisas e olha
naquilo que te apetece
goza
Volta e não olha
toca, mas não demora
tenta chorar, mas não sai
Queima tudo por dentro
E se agride, ignora.
De si mesma sai correndo
Se faz de criança
Aí chora
Não engana a alma
Só empata tua vida
Só esconde a ferida
Que não melhora
É agora
Ta na hora
Simbora!
Sacode a poeira
E levanta a carcaça
Que ainda tem vida
aí dentro
Não se faz de mole
Não me engana
Sei que quer
E que pode
Fala pra si mesma
Fala a verdade
Se olha!
Depois me encara
Aí vamos embora.